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Madu Macedo sobre os dez anos da Coleção em Miúdos: “Há muita gente andando na mesma direção”.

Em 2025, a Coleção Em Miúdos completou uma década desde o lançamento de seu primeiro volume, a Constituição em Miúdos, publicada pelo Senado Federal em 2015. Para registrar esse marco e preservar a história de como a Coleção nasceu, cresceu e se transformou em referência nacional na educação para a cidadania, publicamos a seguir a entrevista completa com sua autora, Madu Macedo.

A trajetória de Madu se confunde com a própria história da educação cidadã no Brasil voltada para crianças e adolescentes. Escritora e ex-diretora da Escola do Legislativo, ela atuou por 29 anos na Câmara Municipal de Pouso Alegre, no Sul de Minas. Ao se aposentar recentemente, deixa um legado profundo: a criação da Gincana do Saber, dos programas Câmara Mirim e Câmara Jovem, e a idealização de algumas das obras de linguagem cidadã mais difundidas no país, incluindo a Coleção Em Miúdos que conta com a escrita de cadernos sobre a Constituição Federal, a Lei Maria da Penha, o Estatuto da Criança e do Adolescente, e a recém lançada Agenda 2030. 

Por meio de uma parceria entre a Associação Brasileira das Escolas do Legislativo e de Contas (ABEL) com a gráfica do Senado Federal, a Coleção em Miúdos se tornou o material didático em cidadania mais difundido do país, alcançando 730.000 tiragens distribuídas em mais de 600 municípios brasileiros – todas de forma subsidiada e sem pagamento de direitos patrimoniais à autora, que desde o início abriu mão da remuneração das obras. 

Seu trabalho sempre esteve ancorado no que preveem o artigo 205 da Constituição Federal e o artigo 22 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional: preparar jovens para o exercício da cidadania. Em todos esses anos, Madu transformou esse mandamento constitucional em prática concreta, aproximando estudantes do Legislativo e traduzindo leis para que pudessem ser plenamente compreendidas por quem mais precisa delas. 

Em conversa com a RedeNEC, a autora concedeu esta entrevista na íntegra como parte do esforço de memória e documentação histórica da Coleção, permitindo que o percurso, os desafios e a visão de sua criadora permaneçam registrados para futuras gerações.

  1. Madu, como nasceu a ideia da coleção Em Miúdos?

Ela foi nascendo devagar, no cotidiano do Legislativo, onde comecei a trabalhar em 1993 e, desde 2004, com foco em educação para a cidadania. Nesse período, comecei a desenvolver projetos com adolescentes e jovens na Câmara Municipal e sentia, cada vez mais, que as leis precisavam sair do “juridiquês” e chegar às pessoas comuns.

Em 2008, criei a Gincana do Saber, onde já trabalhava o ECA, os direitos fundamentais e o Código de Defesa do Consumidor com alunos da Câmara Mirim e da Câmara Jovem. Esses materiais já eram em linguagem simples e dialogada. Ali eu vi, na prática, que quando a linguagem muda, o olhar dos jovens muda também.

Mais tarde, em conversa com o então presidente da ABEL, Dr. Florian Madruga, surgiu a possibilidade de escrever a Constituição nessa linguagem simples, e nasceu a “Constituição em Miúdos”, lançada pelo Senado em 2015. A Coleção é a continuação natural dessa caminhada.

  1. Em que momento você percebeu que precisava traduzir a Constituição para adolescentes?

Foi um acúmulo de cenas. Eu via jovens participando dos projetos da Câmara, interessados, mas muito distantes da linguagem da Constituição, mesmo quando o assunto dizia respeito diretamente à vida deles.

Relendo o artigo 205 da Constituição Federal, que fala da educação como preparo para o exercício da cidadania, entendi que não bastava falar “sobre” cidadania: era preciso colocar a própria Constituição para conversar com os adolescentes. E isso significava trazer o ambiente escolar para dentro dessas leis, falar na linguagem da escola, do professor e do aluno.

A partir daí, ficou claro para mim que era necessário traduzir esse texto para o universo deles, para que pudessem se reconhecer como sujeitos de direitos e deveres.

  1. Você imaginava que o projeto tomaria essa proporção nacional?

Não. Meu desejo inicial era ver essas histórias chegando às escolas, às mãos de estudantes e professores. Quando o então presidente da ABEL, Florian Madruga, levou a ideia ao Senado Federal, eu já me sentia muito contemplada.

O que veio depois – a Coleção chegando às escolas legislativas, projetos de cidadania, diferentes regiões do país – ultrapassou o que eu poderia imaginar. Eu sonhava com algumas salas de aula; a vida levou o projeto muito além delas.

  1. Qual foi o maior desafio ao transformar leis em uma linguagem simples e envolvente?

O maior desafio foi equilibrar fidelidade ao texto legal e proximidade com a vida real. De um lado, a responsabilidade de não trair o sentido das leis; de outro, a necessidade de fazer esse conteúdo caber na experiência de um aluno, de uma professora, de uma escola concreta.

Na prática, foi como traduzir de uma linguagem formal para uma linguagem afetiva: transformar artigos e incisos em cenas, diálogos e situações do cotidiano, sem perder profundidade. A lei continua sendo coisa séria, mas passa a falar diretamente com quem vive sob ela.

  1. Tem algum trecho ou metáfora dos livros que te marcou mais pessoalmente?

Uma imagem que me acompanha é a da Constituição “sentando nos bancos da escola” para conversar com os alunos. Ela resume o que eu buscava: a lei saindo da estante e se tornando presença viva no cotidiano.

Outra é a ideia da ética como um espelho diante do qual a gente se pergunta:

“O que eu faço combina com os valores que eu digo ter, para ajudar a manter a sociedade que eu afirmo querer?”

Essas metaforas me lembram, o tempo todo, por que esses textos existem.

  1. Qual história de estudante ou professor te emocionou e te fez pensar “valeu a pena”?

Não é uma história só, mas muitas cenas parecidas. O aluno que nunca tinha ouvido falar em Constituição e se reconhece em um diálogo; a professora que diz que o tema “finalmente ficou conversável”; o jovem que exclama: “Nossa, isso é um direito meu? Então eu também faço parte disso?”

Toda vez que recebo esse tipo de retorno, vindo de lugares diferentes do Brasil, eu penso “valeu a pena!”. É ali que a lei deixa de ser distante e vira pertencimento.

  1. Como foi ver o Senado e tantas escolas legislativas abraçarem seu trabalho?

Foi uma mistura de alegria, gratidão e responsabilidade. Ver o Senado Federal e tantas escolas legislativas acolhendo a proposta mostrou que essa não era uma iniciativa isolada, mas parte de um movimento maior por uma democracia mais viva.

Desde o início, quando aceitei ceder os direitos patrimoniais das obras para permitir que as cartilhas fossem publicadas e amplamente distribuídas, fiz isso com a convicção de que o mais importante era o conhecimento chegar às mãos de quem precisava. Ao mesmo tempo, sabia que comigo permaneceriam os direitos morais de autoria, protegidos pela Lei de Direitos Autorais. Ao longo desse caminho, o Senado manteve esse reconhecimento, preservando esse vínculo entre quem escreve e o que foi escrito.

Ver o projeto ganhar essa dimensão confirmou, para mim, que conhecimento partilhado com generosidade tende a se multiplicar. E ter esse reconhecimento da autoria preservado torna tudo ainda mais coerente com a própria ideia de cidadania que a coleção defende.

  1. O que a educação cidadã representa para você hoje no Brasil?

Educação cidadã, para mim, é uma bússola. É ela que aponta o caminho quando falamos de um Brasil mais justo. A política, na essência, trata da nossa vida em comum; sem ética e sem educação, isso vira só discurso.

Quando a Constituição fala de dignidade, igualdade, liberdade, justiça e respeito às diferenças, está desenhando uma ideia de “vida boa” que só existe se virar prática cotidiana. Educação cidadã é justamente esse exercício de aprender a ser gente com os outros, num país profundamente desigual. Não é um tema acessório; é uma necessidade urgente.

  1. Como você se sente ao ver a Coleção Em Miúdos completar 10 anos e seguir formando jovens?

Sinto uma mistura de emoção e responsabilidade. Dez anos permitem olhar para trás e ver que a escolha de escrever esses textos fez sentido. Mas, para mim, mais do que comemorar uma data, é ver a educação para a cidadania crescer no Brasil.

Conhecer o trabalho da RedeNEC e, por meio dela, me conectar com o terceiro setor, empresas privadas, universidades, escolas judiciárias e tantas outras instituições que também atuam com cidadania foi o maior presente desses 10 anos. Perceber que essa semeadura não era isolada, que há muita gente caminhando na mesma direção, deu ainda mais sentido a tudo.

Não vejo apenas a trajetória de uma coleção, mas uma rede viva apostando nesse caminho.

  1. Qual mensagem você deixaria para as novas gerações que vão aprender cidadania com seus livros?

Eu diria: lembrem-se de que vocês têm voz. Vocês são sujeitos de direitos, de deveres e de dignidade. A Constituição e os estatutos não são textos distantes; foram escritos para proteger vidas concretas, inclusive a de vocês.

Quando abrirem as páginas da Coleção, procurem pessoas, histórias, perguntas – não apenas leis. E guardem uma ideia: o país que queremos só faz sentido se o caminho até ele for coerente com esse desejo, nos gestos de cada dia.

Conhecimento que se partilha e se vive com amor tende a dar certo e a se multiplicar. Vocês são parte fundamental dessa construção.

A entrevista acima integra o registro dos 10 anos da Coleção Em Miúdos, reunindo em palavras da própria autora o percurso, os aprendizados e o impacto de uma iniciativa que marcou a educação para a cidadania no Brasil. Ao preservar esse relato, mantemos viva a memória de um projeto que aproximou jovens das leis e da democracia, e que segue inspirando educadores, instituições e novas gerações.

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