Isabella Alchorne relembra a trajetória do Caminho do Futuro: “O projeto nasceu para permitir que os adolescentes voltassem a sonhar”
Em entrevista à Rede Nacional de Educação Cidadã, Isabella Alchorne, diretora pedagógica do Movimento Futuro, fala sobre a trajetória do projeto, seus impactos na convivência escolar e a relação entre projeto de vida e educação cidadã.
A escola é um espaço de aprendizagem, mas também de convivência coletiva, participação e construção de projetos de vida. Em um contexto marcado pelo aumento da violência, pela evasão escolar e pelos desafios de engajar crianças e adolescentes na vida em comunidade, iniciativas que fortalecem competências socioemocionais e estimulam o protagonismo estudantil têm ganhado cada vez mais relevância para a promoção da educação cidadã.
É dentro desse cenário que atua o Movimento Futuro, organização da sociedade civil que desenvolve projetos voltados à formação de crianças, adolescentes, jovens e educadores. Com foco na promoção da educação socioemocional e no desenvolvimento de projetos de vida, a organização procura romper ciclos de violência e exclusão por meio de experiências que fortalecem vínculos, estimulam a participação e incentivam os estudantes a reconhecerem seu potencial de transformar a realidade em que vivem.
Na entrevista, Isabella apresenta o projeto Caminho do Futuro, compartilha como a iniciativa evoluiu ao longo de dez anos de atuação e reflete sobre o papel da escola na formação de cidadãos capazes de sonhar e construir mudanças em seus territórios.
Confira, a seguir, a entrevista completa com Isabella Alchorne.
1. Do que se trata o projeto Caminho do Futuro e como ele surgiu?
O Caminho do Futuro surgiu em 2015 com a intenção de ser um projeto dentro das escolas que permitisse aos adolescentes voltar a sonhar. Quem entra em uma escola percebe como aquele lugar deveria inspirar a gente a desejar um mundo melhor e a reconhecer a nossa capacidade de construir um futuro positivo. Infelizmente, isso não estava mais acontecendo nas escolas, e foi justamente por isso que o Caminho do Futuro nasceu.
Desde 2015, percebemos que, além de promover esse espaço de sonhar, o projeto também tem trabalhado para melhorar a convivência escolar, reduzindo a violência entre os estudantes. Hoje, tratamos também de criar um ambiente em que a convivência seja melhor e a violência diminuída.
2. Quais foram as maiores mudanças entre o que foi inicialmente planejado para o Caminho do Futuro e o que acontece efetivamente no ‘chão’ do projeto? Houveram redirecionamentos?

Como eu mencionei, o Caminho do Futuro nasceu em 2015 e, de lá para cá, mudou bastante. Uma das maiores mudanças foi com relação aos passos do projeto. Inicialmente, começávamos direto no passo Sonhar. Com o tempo, percebemos, com as devolutivas dos estudantes, que era fundamental incluir dois passos anteriores: o Interagir e Confiar. Isso porque é essencial que os adolescentes se conheçam e construam confiança entre si antes de falarem sobre seus sonhos.
Ao longo dos anos, fizemos vários pilotos e, em 2024, nos sentimos prontos para transformar o Caminho do Futuro em um material que pudesse ser distribuído para escolas públicas, privadas e outras organizações em todo o Brasil. Hoje, ele se tornou uma coleção com versões específicas para cada série, do sexto ao nono ano, cada uma com sua intencionalidade pedagógica.
Todas essas mudanças vieram dos ajustes feitos com base na prática, mostrando como o projeto evoluiu ao ouvir os estudantes e realmente se moldar às necessidades deles. A “cara” que o Caminho do Futuro tem hoje é totalmente diferente daquela de dez anos atrás.
3. De que forma você acha que o projeto transforma a trajetória dos participantes?
Eu tenho certeza de que a trajetória dos participantes é transformada tanto no sentido de perceberem que eles podem sonhar, quanto no de perceberem que eles são capazes de criar projetos que transformem o mundo. Isso quer dizer que, quando mostramos aos estudantes que ninguém é jovem demais para começar a fazer mudanças, eles passam a abraçar essa ideia, a desenvolver a autoestima, e a acreditar que também são capazes de realizar projetos significativos.
Além disso, percebemos que o projeto também transforma as relações entre os participantes. Fizemos uma avaliação em 2025, sob a liderança de um voluntário psicometrista, e identificamos que um dos maiores âmbitos de transformação foi a amabilidade, que envolve empatia, convivência em grupo e autoestima. Isso demonstra como o projeto realmente transforma a trajetória deles.
4. Tem alguma história que te marcou durante o projeto?
Com certeza, essa é sempre uma pergunta difícil, porque todas as histórias e projetos nos marcam. Afinal, um dos princípios do Caminho do Futuro é a geração de vínculos com os estudantes. Então, é inevitável que essas histórias fiquem com a gente.
Eu vou contar duas. A primeira é de 2018, bem no começo, quando eu comecei a trabalhar na organização. Naquela época, a gente trabalhava em uma escola privada no centro de São Paulo e em uma escola pública na periferia de São Bernardo do Campo. Desafiamos os adolescentes a sonharem juntos, criando um projeto de intervenção comunitária em conjunto. Eles partiram de uma visão assistencialista e evoluíram para uma colaboração real, criando o projeto “+ Amor/- Guerra”, com oficinas de contação de histórias antirracistas em escolas de educação infantil. Esse projeto foi tão marcante que ganhou menção honrosa do prêmio Criativos da Escola, do Instituto Alana.
A segunda história é mais recente, de 2025, envolvendo uma turma com alguns conflitos internos. Eles precisavam trabalhar a própria autoestima antes de tudo. Eles criaram livros inspirados em contos de fadas, usando suas próprias histórias de vida. Foi lindo ver como a autoestima deles cresceu a ponto de eles saírem da escola para contar essas histórias em outras instituições. Foi realmente maravilhoso.
5. Como você diria que o projeto colabora para o fortalecimento da educação cidadã?
Primeiramente, o Caminho do Futuro já é, por si só, um projeto de educação cidadã. A gente trabalha justamente a ideia de que, quando os adolescentes olham para o território onde vivem e identificam as mudanças sociais que podem fazer ali, eles já estão agindo como cidadãos. Além disso, usamos a metodologia de aprendizagem solidária: os estudantes pegam o que aprendem na escola e aplicam isso em benefício da sociedade, o que fortalece a educação cidadã.
Muitas vezes, a gente acha que educação cidadã é só falar sobre eleições ou sistemas de governo. Mas, na verdade, cidadania está nas ações do dia a dia, como não jogar papel no chão, não gritar com o colega, entendendo que cada escolha impacta o coletivo. O Caminho do Futuro ensina isso. Ah, e, como eu disse, estamos finalizando a coleção. Já fica aqui o spoiler de que… na próxima versão para o oitavo ano teremos um enfoque muito forte muito nessa relação com cidadania, explorando direitos, deveres e essas questões de uma forma mais direta. Mas posso te afirmar com assertividade: todos os livros do Caminho do Futuro têm a educação cidadã como premissa e pano de fundo.
Cidadania como prática cotidiana
Ao longo da entrevista, fica evidente que a educação cidadã também significa criar oportunidades para que crianças e adolescentes desenvolvam autonomia, construam relações de confiança e compreendam que podem participar ativamente da transformação da sociedade. Ao conectar projeto de vida, convivência e ação coletiva, o Caminho do Futuro mostra como a cidadania pode ser vivida no cotidiano escolar, muito antes de se traduzir em conceitos formais ou conteúdos meramente curriculares.